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Poesia | A propósito de Merda...

Durante o Alto Estado Novo a situação económica do país não era famosa. Os governos de Salazar nada faziam, sabiam ou podiam fazer para contrariar a pobreza e o atraso generalizado em que Portugal se encontrava. Já naquele tempo a agricultura alentejana era problemática... Os agricultores viviam na penúria e queixavam-se de que as terras eram pouco férteis. Decidiram, por isso, enviar um emissário ao Terreiro do Paço dando conta da sua difícil situação e pedindo a intervenção governamental para ultrapassar a crise. Bastava, para tanto, que o Governo enviasse adubo e fertilizantes para as terras. Constituiu-se então uma comissão, liderada por D. Tancredo, um lavrador de grande notoriedade, que teria a ingrata missão de levar até ao Ministro da Agricultura da época, um tal Sr. Soisa, as justas e sinceras reivindicações dos agricultores alentejanos. Para o efeito, redigiu D. Tancredo o texto que se transcreve:

Porque julgamos digna de registo
A nossa exposição, Sr. Ministro,
Erguemo-nos até vós humildemente,
Numa toada uníssona e plangente,
 Em que damos razão da nossa crise
E em que evitamos o menor deslize.

Senhor: Em vão esta província inteira
Semeia, lavra, atalha a sementeira
Suando até à fralda da camisa...
Falta-nos a matéria orgânica precisa
Nesta terra que é delgada e sempre fraca.
A matéria em questão chama-se caca!

Precisamos de MERDA, Sr. Soisa
E nunca precisámos de outra coisa.

Se os membros desse ilustre Ministério
Quiserem tomar o nosso caso a sério,
Se é nobre o sentimento que os anima,
Mandem cagar-nos toda a gente em cima
Dos maninhos torrões de cada herdade.
E mijar-nos também, por caridade.

Se o Sr. Dr. Oliveira Salzar
Tiver vontade de cagar,
Venha até nós solícito, calado,
Busque um terreno que esteja lavrado
E, na sua qualidade de Presidente do Conselho,
Queira espremer-se até ficar vermelho.

E, se lhe escapar um traque, não se importe:
Quem sabe se cheirá-lo nos dá sorte...
(Quantos não porão as esperanças
Num traque do Ministro das Finanças).
E, quem viver aflito, sem recursos,
Já não distingue os traques dos discursos.

Não precisa de falar: tenha a certeza
Que a maior fonte de riqueza,
Desde os grandes montes às courelas,
Provém da merda que juntarmos nelas.

Precisamos de MERDA, Sr. Soisa
E nunca precisámos de outra coisa.

Adubos de cal, potassa, azote:
Mandem-nos merda pura de Bispote.
E todos os penicos portugueses
Durante, pelo menos, uns seis meses,
Sobre o montado, sobre a terra campa,
Continuamente nos despejem trampa!

Ah! Terras alentejanas, terras nuas,
Desespero de arados e charruas.
Quem as compra, as arrenda ou quem as herda,
Sente a paixão nostálgica da merda!...

Ah! Merda grossa e fina, merda boa
Das inúteis retretes de Lisboa.
Como é triste pensar que todos vós
Andais cagando sem pensar em nós...

Precisamos de MERDA, Sr. Soisa
E nunca precisámos de outra coisa.

Se quereis fomentar a agricultura
Mandem-nos vir muita gente com soltura!
Nós produziremos o trigo em larga escala
Pois até nos faz conta a merda rala...

Podem vir todas as merdas à vontade,
Não fazemos questão de qualidade:
Formas normais ou formas esquisitas.
E, desde de o cagalhão às caganitas,
Desde a pequena poia à grande bosta,
De tudo o que vier a gente gosta!

Precisamos de MERDA, Sr. Soisa
E nunca precisámos de outra coisa.

(D. Tancredo, lavrador)
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